Arquivo para julho \18\UTC 2009

Olha e vê.

Ele passou, mais uma vez. Eu o vi, óbvio.
Aliás, tenho visto ele desde a primeira vez que o vi. Ele olha, mas não vê. Acho que nunca chegou a ver além daquilo que ele queria. Mas o que ele vê? É o mesmo que eu vejo no espelho todos os dias? Não, não deve ser. Ele não me vê, só isso.
Duvido que saiba que eu existo.
Duvido que ele repare no meu corte de cabelo assim como eu reparo no dele.
Duvido que ele perceba que eu me vesti toda de verde, só porque ele é palmeirense.
Duvido que ele tenha me visto da primeira vez que eu o vi.
Quando ele passava, ficava tensa, parava de respirar por segundos, mas poderiam ser horas.
Quando ele passava, meu corpo se contorcia todo, só pra ver o dele gingando.
Quando ele passava, o perfume dele invadia a minha cabeça e os meus pensamentos
E da primeira vez, eu me apaixonei pelos olhos dele. Pela boca dele. Pelo jeito dele. Por ele gostar das mesmas bandas que eu.
Olhei lá no fundo e vi o que acabou se tornando os meus sonhos de todas as noites. E os meus devaneios de todos os dias.
Mas ele não via, sequer olhava. Nem sabia que eu estava apaixonada.

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Defenestras?

TV, papel, chiclete, copo, a mãe, computador, perfume, fogos de artifício, balão, bola, ovo, gelo, tênis, ranho, cabelo, xarope, comprimido, a mãe, o pai, contas de luz, telefone, celular, garrafa, prendedor de cabelo, brinco, meia, o atendente de telemarketing, trabalhos, faculdade, horários, professor, comida, resto de maçã, resto de pêra, resto de creme dental, cuspe, meleca, cera de ouvido, lápis, caneta sem tinta, caneta com tinta, refil da caneta, vendedor de loja, almofada, chave, pó, sujeira, escova de dente, pente, o cara que vai a 30km/h na faixa da esquerda, carteira de motorista, IPVA, IPTU, IGPM, IIS, INSS, o marido, filhos, os filhos que não tem, o avô que morreu, a prima que mora longe, ursinho de pelúcia, calcinha, cueca, roupas do ex-marido, fogo, água, terra, coração, vidro, plástico, saco de salgadinho, pipoca, arroto, aquela pessoa que senta do seu lado no ponto de ônibus e não pára de falar, prova de matemática em plena segunda feira, aula, colega chato, mau humor, gripe, camisinha, conversa fora, beijo…

Quem nunca jogou – ou pensou em jogar – uma dessas coisas pela janela, que atire a primeira pedra – pela janela.

Primeiras Vezes

Era a primeira vez que ela ia buscar alguém de carro. Era a primeira vez que ele seria buscado.
Era a primeira vez que ela o via, ao vivo, em cores. Era a primeira vez que ele não a via somente em seus sonhos.
Era a primeira vez que ela escutava a risada dele, que via seu sorriso, que percebia suas espinhas, que reparava no seu cabelo. Era a primeira vez que ele a admirava, que apreciava o brilho do olhar dela, que notava seus lábios, que ouvia sua voz escandalosa.
Era a primeira vez que andavam por aí, juntos.
Era a primeira vez que não se importavam com o barulho lá fora, pois o silêncio ali dentro era muito mais importante do que qualquer outro ruído banal.
Era a primeira vez que descobriam que gostavam das mesmas músicas, que curtiam os mesmos jogos antigos, que desejavam assistir aos mesmo filmes.
Era a primeira vez que ela subia um morro. Era a primeira vez que ele ficava num carro com alguém que nunca havia subido um morro.
Era a primeira vez que ela ia à praia à noite. Era a primeira vez que ele ia à praia com ela.
Era a primeira vez que eles conversaram com o banco deitado, com a lua de testemunha, com o som das ondas, com o brilho das estrelas, com as vozes alteradas, com o coração disparando, com o vidro molhado…
Era a primeira vez dela, com um cara mais novo. Era a primeira vez dele.
E era a primeira vez que os dois se apaixonaram de verdade.

Eu nunca consegui esperar pra escrever alguma coisa que eu realmente quero e que tem um valor todo especial. Esse texto comemora os 11 meses ao lado dele. E eu me sinto como se já fizessem anos…

Parabéns pra nós, por nos agüentarmos e amarmos mutuamente!

Cada louco no seu hospício.

Eu nunca comentei com ninguém, porque acho que não tive necessidade. E como aqui eu posso escrever o que eu quiser, da forma que eu escolher, vou anunciar para o mundo (ok, só para os que me lêem) o meu gosto um tanto quanto inusitado. Porque nunca vi alguém gostar disso. Todo o lugar que eu vou, se têm alguma rodinha de pessoas que comentam sobre, é alguma coisa negativa. E eu sou ao contrário.

Adoro pegar ônibus. VER-DA-DE! Não pelo prazer de ficar esperando, muito menos pelo preço (que a cada ano aumenta um muito), mas pela diversidade de pessoas. E o legal é que eu pego ônibus sempre no mesmo horário e as pessoas nunca são iguais.

Gosto de ouvir música olhando pela janela. O caminho é o mesmo: as mesmas lojas, mesmos pontos de ônibus, mesmas árvores, até os buracos da rodovia eu já decorei. Só que eu me sinto tão bem fazendo isso. O sol tá nascendo e eu consigo ver os primeiros raios da manhã (claro, se eu tiver a oportunidade acordo a tempo de ver os primeiros raios da tarde, mas enfim). Tenho meu lugarzinho especial já. Na poltrona da janela, de frente para o cobrador.

Adoro ouvir conversas alheias. Sou enxerida, fato. Até tiro meu fone de ouvido pra escutar melhor. E já ouvi cada coisa. Mulher que fez barraco porque a descobriu a amante, receita de bolo, meninos discutindo a profundidade/elasticidade da vagina, já vi amigas brigando e até um cara tocando violão.

E como tudo o que é bom, as coisas ruins aparecem. Não suporto dois tipos de pessoa: as faladeiras e fedidas. As fedidas por motivos óbvios. Certa vez, uma mulher fedendo a cigarro entrou no ônibus, sentou e todo mundo ao redor foi saindo de perto dela. Eu, inclusive. E as faladeiras que interrompem esse momento de paz comigo mesma.

Tem louco pra tudo no mundo. Eu escolhi ser a doida que gosta de andar de ônibus…

Viagem ao centro do meu eu

Diante de alguns acontecimentos recentes, fiz uma visita ao meu eu interior. Já fazia tempo que não conversávamos, algo mais formal, mais tête-a-tête. Sinto como se nunca tivesse conversado comigo mesma, de verdade. Saber o que realmente me agrada, quais são as minhas reais opiniões, tentar descobrir o que eu estou fazendo aqui, se gosto de alguma coisa porque é mesmo gostoso ou porque algumas pessoas e mídias dizem que é.

Papeamos de boa e não cheguei à conclusão alguma. Eu poderia dizer que sim, mas estaria mentindo. Pra ser sincera, eu nunca esperava que eu pudesse responder coisas assim. Vivo tão cercada de tudo, que tudo acaba se tornando nada. E eu gosto de estar cercada de tudo. Principalmente de opiniões: preciso sentir a opinião das pessoas. Não apenas sobre mim, mas sobre tudo. Ou nada.

Eu nunca esperei agradar a todos. Isso é uma coisa que aprendi desde pequena e que soube levar. Sou muito tranquila, chego a ser desligada demais até. Parece até uma contradição: precisar estar cercada de coisas e ao mesmo tempo não conseguir prestar atenção em metade delas. Sou assim. Escolhi enxergar somente aquilo que quero enxergar. É um defeito, né? Às vezes é, porque não consigo ver o óbvio. Mas às vezes não.

Fecho os olhos para o que não me interessa. Sejam pessoas egoístas, opiniões petulantes ou futilidade. Mesquinharia, orgulho, mentira. Isso faço questão de não ver. É um clichê. Quem aprecia essas coisas? Os petulantes, orgulhosos, e fúteis. Mas ao contrário do que faço, eles preferiram não olhar para si mesmos. E apontam os erros alheios.

Baralho

Estava ocupando seu tempo jogando paciência no computador.
O ouros parecia quadrado demais em seu losango. Como precisava de ouro, meu Deus. O conserto do carro, a faculdade, comida e absorventes. E sem ter mais de onde tirar, ela trancou a faculdade, o carro estava amassado há meses, comia miojo com salsicha. Só sobrava dinheiro pro absorvente. Algum luxo ela tinha que ter.
E paus, esse nem se fala. Uma árvore. Mas ela só conseguia pensar no objeto fálico. Claro, estava há dias sem sexo. Alguém que pudesse lhe dar todo o prazer, a luxúria sem compromisso e a conversa regada a cerveja a cigarros, mas ela não ia encontrar, afinal precisava dele. Amor.
Copas, com seu coração vermelho pulsante, mostrava tudo o que um dia ela jamais teria. O amor verdadeiro, o amor sincero e nada tedioso. O amor com quem ela pusesse transar, em quem ela pudesse confiar, o amor que iria trazer sua vida de volta.
A espada foi a salvação. Aquela vida sem sentido, sem amor. Ela estava desalmada e não havia retorno.
Estranharam quando a encontraram jogando paciência, o teclado manchado de sangue e ao lado, uma nota.

“Ao baralho, que me mostrou que nem o coringa pode me ajudar.”